quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Han?

Ana é um nome bonito, até porque são raras as coisas que funcionam bem ao contrário.
Eu gosto muito da minha Ana, e das possíveis derivações do nome. Ana é, aliás, a mãe de todas as mães, por ser progenitora da Virgem.
Mas elas acompanham-me. A Anna Witherell, nos Luminares, por ser a protagonista deles todos e capa em quatro luas de quarto diferente; cheia no rosto, minguante no corpo, tal como a história não conta. Rosadinha e branca, devido à moda e ao feitio e em tudo resto oposta à minha. O livro está magro para novecentas páginas, com elas finas como na Bíblia.
Também há a Anne, do George Smiley, que também é deliciosa apenas por causa de agente masculino - o nosso espião preferido. Passo os romances do Le Carré à espera, como numa música de jazz na expectativa do solo, das cartas de amantes que Smiley deixa em cima da lareira, sem as abrir, das conversas, da dúvida, do dialeto social acordado entre ambos, e da vontade que não se chega a cumprir. Ele promete-se que é hoje o dia em que se vai ser e ganhar, no entanto, alguém bate sempre à porta primeiro.
E ela ofereceu-lhe um disco do Mahler. Isso diz quase tudo. 

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

Dez

O homem bebia e comia sem pressa, ao mesmo tempo que se passeava entre leituras.
Começara com o jornal de sábado, depois o desportivo e por fim um livro a meio da primeira metade.
A latência do conjunto de processos não se devia ao facto de recear perder a legitimidade de ocupar a mesa. O trato familiar às empregadas e a abundância de lugares vazios no café eliminavam esta hipótese.
No entanto, um observador mais incisivo detetaria a postura de alguém a quem faltava alguma coisa.
O olhar cronometrado para a porta, as tossidelas e a tentativa de um ofegar profundo como resposta.
Pedira duas torradas e um galão grande e debicava a última fatia há já uma hora, cuidando também da réstia de café como se fosse a sobra de uma cerveja órfã de gás.
Travava então uma batalha com o pão arrefecido e com o tempo, sofrendo na missão de o ignorar. Conseguia sorrir de vez em quando, com as parvoíces dos atletas ou com os caprichos de uma personagem. Virara se de frente para a porta pela corrente de ar, não por exibicionismo. O calor da cozinha aconchegava o talvez demasiado, enquanto que o vento da esplanada faria voar os dois guardanapos que necessitava. Um para não sujar as páginas com manteiga, outro para os pingos que caiam do seu nariz com a mesma frequência que virava uma das folhas. Era um bom livro. E esquecera se dos lenços. Como costume. 

quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Deboche

Que bastardas são as crianças deste império.
Há uma total inversão dos cânones geométricos do vestir. Um desequilíbrio onde as t-shirts são três tamanhos acima, as calças dois abaixo e a gabardine e os sapatos demasiado elegantes para a restante indumentária ou - e especialmente - para as faculdades intelectuais e humanas do portador.
A noite inglesa é, além de molhada, nojenta. Bêbada em vez de ébria, nua em vez de verdadeira, e de uma promiscuidade nada cavalheiresca.
Há a polícia - sem armas -, as rixas e os coitos outdoor. A lama da madrugada tresanda a uma seleção de fluídos mais humanos do que a natureza prevê.


quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Our Word

Nós, aqui, temos essa palavra. Saudade.
Aquela que ninguém pode ter. You can ‘miss’ someone, ‘long’ for someone or fall into solace.
Os outros invejam-nos por ser nossa. Portugal é de ouro só por ser proprietário da expressão ‘saudade’. Não há nem interessa o BES, o FMI, a Base das Lajes ou o Ronaldo. Brinco com eles, dizendo que essa nossa exclusividade semântica se trata de uma vingança pela ditadura de Wellington ou pelo tratado de Metween. E eles procuram energeticamente uma alternativa. Nostalgia, day dream, pain.
            Aqui existe este mito entre os anglo-saxónicos; os australianos, os britânicos, uns canadianos, alguns americanos.
            Além de, fora os poetas, introduzirem os seus textos com as condições meteorológicas em redor – a chuva, as folhas e um sentimento mais amargo – não deixam de possuir uma inveja saudável pela nossa palavra. Faz parte de nós, sentir a falta, expliquei-lhes, por termos sido descobridores e, depois agora, emigrantes.

            Assinam sempre com as iniciais dos primeiros nomes antes do apelido. A minha seria S.R. Bugalho, o que tem a sua graça, não é?  

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

não vou rever este texto (nem acordar cedo amanhã)

Foi sempre a nossa canção, sabias? É verdade. Nunca a ouviste, tenho a certeza; não tens esse disco. De qualquer dos modos, nunca teria coragem para te mostrar, nem havia uma versão decente o suficiente no youtube.

Mas era. Eu acordo todos os dias a pensar numa música diferente. Às vezes lembro-me de qual, outras não. Faz parte, eu já não dou muita importância. Tinha andado a guardar esta para uma das personagens, mas enfim.

Cada vez que voltava atrás para te dizer adeus outra vez e depois me ia embora a dizer asneiras baixinho e a imaginar no que estavas pensar a subir as escadas. Tenho uma personagem que odeia prédios sem elevador. Costumava ser de noite e fugia às luzes fortes da tua rua. Já foi há muito tempo, não já? A mim parece-me. Talvez por ter andado tanto tempo à espera de que a única versão do 'Every Time You Say Goodbye' na internet não fosse a dos Simply Red.

Agora o Charlie Haden morreu e deixou-me esta prenda. 'I die a little' diz a letra. 'I wonder why a little', 'Why the gods above me, who must be in the no, think so little of me they aloud you to go', 'There's no love song finer, but how strange the change from major to minor'. É do Cole Porter, portanto é bom para caramba. Mas a coisa do jazz é essa, fazer com que os instrumentos façam valer a letra sem ninguém ter que a ler. Deve ser difícil ser tão subtil numa arte matemática e, ao mesmo tempo, criativa. O Jarrett dizia que tocar com ele era como se estivessem a cantar só os dois. Faz sentido agora.

O Charlie e a sua última dança. Os gigantes despedem-se pelas pessoas, não por eles mesmos, penso.
Nós nunca nos despedimos a sério, mas dissemos adeus muitas vezes. Foi, não foi? Eu nem costumo fazer perguntas (destas). Se não tenho que me lembrar do nome da música de manhã acho que posso deixar a saudade simular amnésia.

Eu gosto de me recordar das coisas, das coisas todas, e a música é uma boa gasolina para isso.
A perfeição está na simplicidade, disse-me o pai, quando fomos vê-lo.
A simplicidade é algo muito complexo, disse, de certeza, alguém que chegou à conclusão antes de mim. Alguns paradoxos dão não-tão-maus clichês.
E eles até tocam as mesmas músicas. Eu conheço-as, conheço-os, como te conhecia a ti. Já as identifico, já gosto de as ver repetidas de maneira distinta.

Nunca me vou despedir deles. Eles são imortais porque deixaram cá estes discos. Mas e nós que não tocamos instrumento nenhum, deixamos cá o quê? Se calhar é por isso que escrevo, mas não.
O Keith Jarrett está a dizer adeus ao Charlie Haden, a uma amizade de quarenta e sete anos. É como escutar uma conversa que não nos diz respeito, como ir coscuvilhar as últimas palavras entre entes queridos. Acredito que é por isso que os discos deles existem.

Eu sei que eles tocam o Where Can I Go Without You e o My Old Flame porque são das favoritas do Charlie e o Charlie ia morrer. Sei quais é que têm em comum e também que o Goodbye foi para todos nós.

São como dois amigos a quem disseram que tinham que ir brincar juntos pela última vez. Eu também ia para o meu baloiço favorito. Voar e acenar ao mesmo tempo. Eles são músicos, as mãos hão-de ter a sua independência uma da outra.



E tu; se ainda aí estiveres. Deixas-me o quê 

domingo, 1 de Junho de 2014

Sensibilidade e Mau-senso

O que é mesmo feio é que estou a escrever demais. Tu reparaste. Isto faz com que, mais do que a energia da minha distracção, não me consiga lembrar de tudo; além de nada bonito, triste.
Eu podia ter sido - e fui, durante breves noites separadas por várias esperas - o tipo de louco que envia versos, que não consegue fazer mais do que duas viagens, independentemente do destino, sem se lembrar de alguém pelo caminho. Lembrava-me sempre. A memória é como a polícia, só comparece quando não dá jeito.
Essa paixão existencial não passa, na verdade, disso mesmo. Vivemos apaixonados pela ideia que temos de uma saudade, não da própria boca que declamou o poema. É tudo um toque de mãos acidental. Se o fascínio fosse filho da pessoa em si, ninguém ia amar ninguém. A expectativa, além de catalisadora de motivos, é causa de desistência.
Isso sim é feio.
Nós, que ainda não tivemos tempo de ser nada, temos lembranças próximas o suficiente para não nos esquecermos. Seria tudo mais fácil.
Vamos ver se hoje sonho com defeitos ou almoços grátis. Nenhum deles é nada; mas lá temos que tirar alguma coisa. Não é?

sexta-feira, 30 de Maio de 2014

orgulhosamente teu

Subíamos pela calçada larga, lateral ao jardim. Deixávamos a feira para trás, mas por pouco tempo. A bandeira enorme exibia-se ao vento. O chuvisco cessara. Íamos os três, abraçados em linha depois da batalha, na fé de uma vitória. Parávamos de vez em quando na rampa, pelos sacos e para nos contemplarmos uns aos outros, às perguntas e aos sorrisos.
As mulheres, a literatura e o país. As pessoas, os que são extraordinários são os que não acreditam no que é bom, mesmo sabendo que seria verdade merecida. Fora o saber, a humildade é o mais importante que podemos aprender com elas.
Eu sempre fui magro, mas as calças pesaram mais quando, no seu silêncio, ela escreveu a morada no papel. Ela, que todos lemos, queria-me ler. O peso, que foi fazendo a ganga escorregar-me pela cintura até a fralda ficar exposta, era um peso que me fazia voar.
Como é que podia acreditar nos comentários dos outros extraordinários. Que, assim de repente, podia subir as mesmas rampas que eles, olhar a mesma relva, gozar o mesmo céu. Colegas de confraria. Não, não. Sim, sim. Sim! Não... que não te suba à cabeça. Nunca vou ser escritor, não me interessa. Ouvir e estar com os extraordinários fez-me desinteressar totalmente por mim. (Parabéns, extraordinários. Belo feito. Muito obrigado). Eu não interesso, só me interessava era não chorar.
As gerações de eterno caso amoroso com África, os corações de mãe. 'A culpa é sempre da mãe', concordaram. E eu acreditei! As extraordinárias dos extraordinários são mulheres que são mães e não raparigas.
Eu estava feliz. Com uns telefonemas risonhos, ali no meio de tanto livro. A malta da sagres oferecia cerveja de gengibre e sushi. Isto de andar de camisa ajuda imenso na invasão de cocktails.
Aquela subida foi a mais bela das boleias.
A minha mãe carrega-a a Ela, eu carrego a minha mãe e a bandeira carrega-nos a nós.
Nunca me pensei como amigo canhoto da cultura, embora a esquerda seja quase omnipresente nos extraordinários. Todavia, o facto é que não antes me sentira tão orgulhoso de ser português. Que amor, que orgulho, que fé. Tão lindas, as palavras, mães do patriotismo.