segunda-feira, 14 de Julho de 2014

não vou rever este texto (nem acordar cedo amanhã)

Foi sempre a nossa canção, sabias? É verdade. Nunca a ouviste, tenho a certeza; não tens esse disco. De qualquer dos modos, nunca teria coragem para te mostrar, nem havia uma versão decente o suficiente no youtube.

Mas era. Eu acordo todos os dias a pensar numa música diferente. Às vezes lembro-me de qual, outras não. Faz parte, eu já não dou muita importância. Tinha andado a guardar esta para uma das personagens, mas enfim.

Cada vez que voltava atrás para te dizer adeus outra vez e depois me ia embora a dizer asneiras baixinho e a imaginar no que estavas pensar a subir as escadas. Tenho uma personagem que odeia prédios sem elevador. Costumava ser de noite e fugia às luzes fortes da tua rua. Já foi há muito tempo, não já? A mim parece-me. Talvez por ter andado tanto tempo à espera de que a única versão do 'Every Time You Say Goodbye' na internet não fosse a dos Simply Red.

Agora o Charlie Haden morreu e deixou-me esta prenda. 'I die a little' diz a letra. 'I wonder why a little', 'Why the gods above me, who must be in the no, think so little of me they aloud you to go', 'There's no love song finer, but how strange the change from major to minor'. É do Cole Porter, portanto é bom para caramba. Mas a coisa do jazz é essa, fazer com que os instrumentos façam valer a letra sem ninguém ter que a ler. Deve ser difícil ser tão subtil numa arte matemática e, ao mesmo tempo, criativa. O Jarrett dizia que tocar com ele era como se estivessem a cantar só os dois. Faz sentido agora.

O Charlie e a sua última dança. Os gigantes despedem-se pelas pessoas, não por eles mesmos, penso.
Nós nunca nos despedimos a sério, mas dissemos adeus muitas vezes. Foi, não foi? Eu nem costumo fazer perguntas (destas). Se não tenho que me lembrar do nome da música de manhã acho que posso deixar a saudade simular amnésia.

Eu gosto de me recordar das coisas, das coisas todas, e a música é uma boa gasolina para isso.
A perfeição está na simplicidade, disse-me o pai, quando fomos vê-lo.
A simplicidade é algo muito complexo, disse, de certeza, alguém que chegou à conclusão antes de mim. Alguns paradoxos dão não-tão-maus clichês.
E eles até tocam as mesmas músicas. Eu conheço-as, conheço-os, como te conhecia a ti. Já as identifico, já gosto de as ver repetidas de maneira distinta.

Nunca me vou despedir deles. Eles são imortais porque deixaram cá estes discos. Mas e nós que não tocamos instrumento nenhum, deixamos cá o quê? Se calhar é por isso que escrevo, mas não.
O Keith Jarrett está a dizer adeus ao Charlie Haden, a uma amizade de quarenta e sete anos. É como escutar uma conversa que não nos diz respeito, como ir coscuvilhar as últimas palavras entre entes queridos. Acredito que é por isso que os discos deles existem.

Eu sei que eles tocam o Where Can I Go Without You e o My Old Flame porque são das favoritas do Charlie e o Charlie ia morrer. Sei quais é que têm em comum e também que o Goodbye foi para todos nós.

São como dois amigos a quem disseram que tinham que ir brincar juntos pela última vez. Eu também ia para o meu baloiço favorito. Voar e acenar ao mesmo tempo. Eles são músicos, as mãos hão-de ter a sua independência uma da outra.



E tu; se ainda aí estiveres. Deixas-me o quê 

domingo, 1 de Junho de 2014

Sensibilidade e Mau-senso

O que é mesmo feio é que estou a escrever demais. Tu reparaste. Isto faz com que, mais do que a energia da minha distracção, não me consiga lembrar de tudo; além de nada bonito, triste.
Eu podia ter sido - e fui, durante breves noites separadas por várias esperas - o tipo de louco que envia versos, que não consegue fazer mais do que duas viagens, independentemente do destino, sem se lembrar de alguém pelo caminho. Lembrava-me sempre. A memória é como a polícia, só comparece quando não dá jeito.
Essa paixão existencial não passa, na verdade, disso mesmo. Vivemos apaixonados pela ideia que temos de uma saudade, não da própria boca que declamou o poema. É tudo um toque de mãos acidental. Se o fascínio fosse filho da pessoa em si, ninguém ia amar ninguém. A expectativa, além de catalisadora de motivos, é causa de desistência.
Isso sim é feio.
Nós, que ainda não tivemos tempo de ser nada, temos lembranças próximas o suficiente para não nos esquecermos. Seria tudo mais fácil.
Vamos ver se hoje sonho com defeitos ou almoços grátis. Nenhum deles é nada; mas lá temos que tirar alguma coisa. Não é?

sexta-feira, 30 de Maio de 2014

orgulhosamente teu

Subíamos pela calçada larga, lateral ao jardim. Deixávamos a feira para trás, mas por pouco tempo. A bandeira enorme exibia-se ao vento. O chuvisco cessara. Íamos os três, abraçados em linha depois da batalha, na fé de uma vitória. Parávamos de vez em quando na rampa, pelos sacos e para nos contemplarmos uns aos outros, às perguntas e aos sorrisos.
As mulheres, a literatura e o país. As pessoas, os que são extraordinários são os que não acreditam no que é bom, mesmo sabendo que seria verdade merecida. Fora o saber, a humildade é o mais importante que podemos aprender com elas.
Eu sempre fui magro, mas as calças pesaram mais quando, no seu silêncio, ela escreveu a morada no papel. Ela, que todos lemos, queria-me ler. O peso, que foi fazendo a ganga escorregar-me pela cintura até a fralda ficar exposta, era um peso que me fazia voar.
Como é que podia acreditar nos comentários dos outros extraordinários. Que, assim de repente, podia subir as mesmas rampas que eles, olhar a mesma relva, gozar o mesmo céu. Colegas de confraria. Não, não. Sim, sim. Sim! Não... que não te suba à cabeça. Nunca vou ser escritor, não me interessa. Ouvir e estar com os extraordinários fez-me desinteressar totalmente por mim. (Parabéns, extraordinários. Belo feito. Muito obrigado). Eu não interesso, só me interessava era não chorar.
As gerações de eterno caso amoroso com África, os corações de mãe. 'A culpa é sempre da mãe', concordaram. E eu acreditei! As extraordinárias dos extraordinários são mulheres que são mães e não raparigas.
Eu estava feliz. Com uns telefonemas risonhos, ali no meio de tanto livro. A malta da sagres oferecia cerveja de gengibre e sushi. Isto de andar de camisa ajuda imenso na invasão de cocktails.
Aquela subida foi a mais bela das boleias.
A minha mãe carrega-a a Ela, eu carrego a minha mãe e a bandeira carrega-nos a nós.
Nunca me pensei como amigo canhoto da cultura, embora a esquerda seja quase omnipresente nos extraordinários. Todavia, o facto é que não antes me sentira tão orgulhoso de ser português. Que amor, que orgulho, que fé. Tão lindas, as palavras, mães do patriotismo.


terça-feira, 20 de Maio de 2014

Roth

Eu não sei porque gosto tanto do Philip Roth. Sim, eu não gosto só de ler o que ele escreve, também acho graça aquilo que ele diz, o que já tem força suficiente para me deixar dizer que gosto dele, não é? É.

Quer dizer, eu sei porquê. A última coisa que vi o Urbano ler foi o Goodbye, Colombus. Deus tem um sentido de humor engraçado; o Philip também. Trato-o por Philip. Aqui na autobiografia dele é sempre Roth e já não tenho paciência. Roth é tão judeu quanto o Philip Roth. Tive uns amigos que me chamavam judeu, pelo nariz, caracóis e tendência para a poupança monetária.

Mas vá, tirando as influências, a qualidade e o sentimento. Porquê o Philip Roth? Também li tudo do Silva, até fui procurar algumas entrevistas do Cornwell, um ou dois relatórios sobre o Puzo e - aqui claramente influenciado - um loft no meu coração para o David Lodge. Mas o Roth é o Roth. Ah, desculpem, Philip, eu queria dizer Philip.

Talvez seja daquela massa de humanidade toda. Tão próxima de tudo o que preferimos ignorar que quase repugna (às vezes repugna mesmo) de medo. Prazer pecador, disseste tu, numa boleia sonolenta. É. Torna-se difícil de fugir, porque lê-lo é pior do que olharmos para dentro de nós próprios. Ele vai fundo. Arranca as crostas todas e escarafuncha lá os dedos, um a um, se for preciso, se lhe apetecer, se lhe sair. Não sei se a ele as coisas lhe saem ou se já vem tudo pré-planeado. Quem sabe? Ele já nem escreve. Cansou-se daquilo. De olhar para nós todos, nele, nus, todos os dias.

Portanto, a verdade é que o admiro e adoro os livros dele, no entanto, não o invejo, não o ponho no horizonte dos objetivos, não sou assim tão rothiano ou passível de rothirizar - um novelista tão enjoado do mundo que deixa de escrever não é algo que quem escreva deseje - é algo, por outro lado, que quem lê lamenta, bastante. 

sábado, 3 de Maio de 2014

Insónia I

Vocês já ouviram Keith Jarrett?
Eu já, assim uma estupidez de horas.
Era como ouvir Keith Jarrett. Eu sabia o tempo que demorava entre o início da faixa e o início da música, o segundo em que ele gania mais alto, em que alguém tossia ou batia palmas antes do suposto, cessando em pressa. Eu sabia a escala que tinha que aguentar até ouvir o solo brilhante.
Ouvir Keith Jarrett é uma coisa muito católica, diria um ateu. Falando dos concertos de improvisação. Tem que se passar por um calvário de marteladas até ele chegar onde a gente gosta. E vale a pena. A dada altura, recusava-me fazer fast forward; tinha que merecer chegar onde queria, sobreviver ao aquecimento dele. Menos no disco que ele dedicou à mulher, esse é diferente, simples, o melhor, o em que não tocou para ele. Bom do início ao fim. Temos-lhe uma religião aqui.
E foi como se nunca mais pudesse ouvir aquele piano, como se ficasse surdo, como se me tivesse esquecido do aplauso precoce, do êxtase, do bater o pé dele feito metrônomo, de um espirrar. De tudo isso e de uma mão. Foi. Como se nunca tivesse ouvido nada que não a memória e o facto de ninguém estar ali. 

terça-feira, 29 de Abril de 2014

pos paz coa

Olá, boa noite
Olá
Estou a dormir para o lado da cama que tu gostas que durma
- Disseram-me que mudar de sítio estimulava o pensamento, como se os nómadas fossem todos uns criativos. Portanto um dia dormi com os pés virados para a cabeceira, hesitando menos tempo do que o costume, por razões supersticiosas ou de higiene. É preciso ter imensa imaginação para não desatar a ter sonhos.
E mais?
Havia um cabelo teu na secretária. Estão mais curtos, os teus cabelos que caem. - Também me debati sobre dizer-te - escrever - isso, mas não. Pouco original.
- É meia-noite. Belo ponto. Tenho as minhas nove horas e meia para dormir.
Não podia querer mais nada
Nem quero 

sábado, 5 de Abril de 2014

afinal chove

Esta coisa de passar da primeira para a terceira pessoa é confusa. De fugir à unidade para o utilitarismo da fragmentação. Que maçada.

As saudades de ouvir, na minha imaginação, o modo como a Greta falava inglês ou como tornei o Ricardo e a sua iliteracia distantes de mim, para não falar do sportinguismo. Eu, que os fiz, sinto a falta de deles. E agora o pretérito imperfeito persegue-me, a casmurrar os verbos que não posso escrever. Escrever até às quatro da manhã e para ninguém, que bom.

A minha mãe é especialista nesse tipo de abstracção, para não dizer fuga. Faz parte. (O 'faz parte' também é dela - o 'enfim' pode ser nosso.)

O truque é dar um bocadinho de verdade, esperando que o alguém queira mais, o resto. O resto. Há? Hoje não. E tentar acreditar que não faz mal se nada nos for pedido, sabendo que tal é impossível.