sábado, 5 de Abril de 2014

afinal chove

Esta coisa de passar da primeira para a terceira pessoa é confusa. De fugir à unidade para o utilitarismo da fragmentação. Que maçada.

As saudades de ouvir, na minha imaginação, o modo como a Greta falava inglês ou como tornei o Ricardo e a sua iliteracia distantes de mim, para não falar do sportinguismo. Eu que os fiz, sinta a falta de deles. E agora o pretérito imperfeito persegue-me, a casmurrar os verbos que não posso escrever. Escrever até às quatro da manhã e para ninguém, que bom.

A minha mãe é especialista nesse tipo de abstracção, para não dizer fuga. Faz parte. (O 'faz parte' também é dela - o 'enfim' pode ser nosso.)

O truque é dar um bocadinho de verdade, esperando que o alguém queira mais, o resto. O resto. Há? Hoje não. E tentar acreditar que não faz mal se nada nos for pedido, sabendo que tal é impossível. 

quarta-feira, 19 de Março de 2014

            Era um ritual secreto do mundo à maioria, tal como grande parte do passado ali.
            Desde que tentaram matar João Paulo II, que a sala Pia, no Palácio Apostólico, servia de local de encontro.
            Um guarda suíço, grego de pai e, obviamente, helvético de mãe, de tal modo esgotado pelo dia em que dispararam sobre o Papa e inconscientemente aproveitando-se da anormalidade da ocasião, quando por fim conseguira uma pausa, apanhara um táxi e fora a Roma comprar três litros de cerveja.
            Regressado ao Vaticano, caminhou, ainda fardado e a passo rápido, pela Basílica de São Pedro e fechou-se na tal sala. A beber e a ouvir a sua música, ao eco das preces pelo polaco.
            A sala Pia, guardava, na teoria, arquivos e equipamento informático antigo. Na prática, e a partir da data, Pollos, o guarda suíço grego, fizera dela uma taberna.
            O único local na santa cidade onde os seus colegas se podiam despir da frieza do ofício. Num fim de tarde de cada mês.
            Como não carregavam dinheiro, pagavam em cigarros. E todos fumavam.

            Dois pontífices depois, Irmã Lisa ajudava Pollos a carregar garrafas para o local e já outros guardas lá se achavam. Alguns convidaram-na a entrar, naquele mundo oculto e só de homens. E ela respondeu, primeiro em italiano – pelo hábito – depois em alemão – pela lógica – e, finalmente, em latim – por força – ‘Não sou nem nunca serei daqui.’
            Um deles estendeu-lhe o sangue de Cristo em copo de plástico. Esta levou-o em silêncio, apreciando a melodia que vinha do rádio do grego, a desvanecer-se à medida que saía para os jardins do Vaticano. De peito quente e cruzes frias.
            Os irmãos bebiam e estendiam-se nas cadeiras. Algumas com uma rodinha em falta, outras com o assento meio rasgado. Calados.
            De súbito, a porta abriu-se com um ruído grave; de quem não sabia o jeito de como rodar a maçaneta velha.
            Francisco entrou. Fazendo com que os pecadores suíços mostrassem uma rara expressão de espanto.
            - Não sabia que gostavas de Piazolla, Walter. – sorriu o ex-bispo, para o mais novo junto às colunas.
            O disco continuou a tocar até ser noite. Sem cessar. 

sexta-feira, 10 de Janeiro de 2014

Portugal é isto

Portugal é isto. Quatro polícias e quatro picas na paragem a multar duas meninas que não pagaram bilhete de autocarro. Do outro lado da rua está mais uma equipa, na caça à multa. Porquê?

            Ao princípio, o governo ainda vacilou. ‘Não banalizar o panteão’, ‘As centenas de milhares de euros que custaria a transladação’. No dia seguinte, a assembleia aprovou unanimemente. Lindos meninos. Os jornais têm capas e o povo não tem que pensar nos cortes durante uns tempos.

          Mais irónico foi o Dr. Soares ter sido o único a dizer umas verdades. Por outro lado, o nosso querido presidente confessou que Eusébio foi ‘uma das pessoas mais fascinantes que conheceu’ na sua vida. A velhice tem destas coisas, não é stor Aníbal? Quando o Saramago morreu – que em vez de marcar nove golos num mundial se ficou por um nobel – teve menos um dia de luto nacional decretado. O Pinto da Costa devia ensinar o Cavaco a discursar. Tem metade do cabelo e o dobro da lucidez.
O Soares lá disse que o Eusébio era simples e modesto, nada contra. Um grande atleta, nada contra, de todo. E sim, disse aquilo que ninguém queria ouvir. Que o senhor bebia uns copitos. Não falou na suspeita de maus tratos, nem no viver às custas do Benfica, nem nos distúrbios em restaurantes.  Mau timing, de facto, mas a necessidade de Mário Soares para chamar a atenção não é novidade, fosse do SLB em vez do PS, talvez tivesse uma estátua em vida. O homem já se enterra sozinho, em cada declaração e crónica, não precisamos de o linchar só porque disse que o Eusébio bebia de vez em quando. Nada de anormal, para esta geração, perguntem ao Toni. Vá lá, estamos a falar do mesmo Eusébio que respondeu que o seu marisco favorito eram tremoços. E não era uma piada.
A Sophia, nossa grande poetisa e membro da oposição ao regime salazarista; o Aristides, que salvou milhares, não constam na lista do panteão nacional. Mas ainda há esperança! Enfim, em janeiro o mercado de inverno futebolístico abre, por isso toca a transferir!
Os verdadeiros heróis nacionais. Aqueles que fizeram mais que o seu trabalho. Porque, na verdade, era isso que Eusébio estava a fazer, extraordinariamente bem, é certo, mas apenas o seu trabalho. Todavia, sim, ser contra esta transladação devido às origens coloniais é ridículo, o próprio primeiro-ministro não nasceu por cá.
Mas pronto, o luto português é uma coisa muito bonita.
Chegámos ao ponto de fazer do Pantera Negra o nosso Madiba. Um esteve uns anos numa ilha e era amigo dos guardas, outro esteve uns anos em Telheiras e era amigo dos barbeiros. Não parece assim tão mal. Se tivéssemos indústria do cinema fazia-se um filme. O Joaquim de Almeida era perfeito para o papel! Pena a comunicação social não ter percebido antes que tinha um Obama em potência cá na terrinha. Descanse em paz.
Espero que já estejam a guardar lugar ao Cristiano lá no panteão. Se a Irina ficar ao lado, então, maravilha. Esqueçam lá o Pedro e a Inês em Alcobaça.
No século XXI está na moda fugir ao tom caucasiano. Vejam o António Costa rumo à presidência! O Anselmo Ralph a esgotar a meo arena e a Isabel dos Santos a comprar a zon no monopólio. Se o Benfica pegar na ideia do Futre com os chineses, daqui a cinquenta anos temos um Cho Kin Kan Yu no panteão e o regresso de políticos maoístas. Meu Deus, como eu amo a globalização! O Luís Filipe Vieira quase chorava quando os adeptos pediram para mudar o nome do estádio para Eusébio da Silva Ferreira. Devia estar com esperança que ninguém se chateasse muito com ele se vendesse a Luz como estádio PT daqui a uns anitos.
Existe algum São Eusébio? Para compensar os dias livres que a troika já nos tirou, podiam criar um feriado nacional do Eusébio.

         Já estou a perceber esta super operação para ver quem ‘não validou o título’ nos transportes públicos; assim do nada e a uma sexta-feira. E o tamanho aparato das forças de segurança (rindo-se, cuspindo e dizendo asneiras em frente à comunidade). As meninas sem bilhete e os reformados é que vão pagar a transladação do Eusébio. A Assunção bem nos avisou! É pena. As meninas estão a chorar tanto quanto o Cardozo no funeral do outro dia. Ninguém percebeu que ele estava pedrado com erva paraguaia (como na maior parte dos jogos em que começa a titular). Pode ser que assim se consiga baixar o IRC! Li agora que os especialistas consideram que as contas do ‘plano b’ do governo estão erradas. O Cardozo deve ser dealer do ministério da economia. Por isso é que não o conseguiram mandar para a Turquia no verão.
Se calhar desvendei mesmo o mistério.
E um amigo meu recebeu hoje uma carta das finanças para pagar 60 mil euros de impostos! Ele nem viu o mundial de 66, pá! As meninas do autocarro nem tinham cara de ser do Benfica! A única coisa que os funcionários públicos fizeram foi também achar graça a tremoços.
Eu cá gosto dele, Eusébio, e do glorioso. E de um whiskey logo de manhã, claro. A sério, o King não celebrava os golos que marcava enquanto a equipa não estivesse a ganhar. Aí está uma coisa que uns quantos secretários de estado podiam aprender. Agora que o Sócrates pensava que finalmente conseguia provar que tinha ido à escola e afinal, mentira, outra vez. O Costa vai mesmo ser Presidente. Enquanto o Correio da Manhã existir o Engenheiro não tem hipóteses.
Também me lembro de ver o lugar do Eusébio no parque de estacionamento do estádio da luz. Já que o governo está numa de multas, talvez devesse dar uma olhada à carta de condução do Eusébio. Existirão túmulos no panteão onde caiba o Cardozo? Aquela lentidão toda é boa para ir buscar a morte. Ele como só usa o pé esquerdo, pode-se cortar o outro a ver se assim se conseguem lá enfiar os dois metros dele. Ah é verdade, a cripta do Ronaldo tem que ser em forma de 7.
            Podem-se sempre fazer obras de reestruturação. Para criar emprego e tal. Esta corrida rumo ao panteão talvez valha mesmo a pena. Se eles não estivessem todos mortos fazia-se um reality-show tipo casa dos segredos. Afinal a Sophia vai com o Eusébio para lá. Tenho um feeling que se ele não estivesse na guest-list, ela não tinha entrado. De qualquer das maneiras, é só um feeling.
            Pena a Merkel não jogar à bola. A CGTP ia adorar pagar o funeral dela.  

segunda-feira, 11 de Novembro de 2013

VIII

- Já fui muito feliz ali.
- Não sei o que é. 
- É uma sala. 
- Parece uma cozinha.
- As cozinhas têm lareira? 
- Não. Mas não se vive numa sala.
- Também não vivi lá, Gil.
- Quem vive. 
Ninguém na varanda. 
- Eles. 
- Podes falar mais alto. 
Atravessaram a estrada. 
- Cravos, cafés, coisas por dar, coisas por receber. 
- Então, nada se devolve? 
- Só os sorrisos. E são poucos. Tens fome?
- Um bocado. 
- Bora ao pão. 
- Bora.
Não havia nada de fresco quente.
- Mauro, porque não ficaste?
- Tinha tanta coisa para contar, que me esqueci. - 'a dar pancadinhas com um sapato no outro, a ver se aqueciam' - Há um ano, amanhã (...) 

sábado, 9 de Novembro de 2013

VII

'Duas figuras fizeram exatamente o mesmo gesto', quão raro seria dois homens pedirem uma rapariga em casamento ao mesmo tempo, no mesmo restaurante?
O trio que tocava uma música ambiente ao canto não sabia para quem tocar agora.
As pessoas não sabiam para qual dos pares olhar e até as noivas por ser ficaram estáticas, ignorando brevemente o namorado ajoelhado e olhando um para a outra. Não se conheciam, fora sem querer. Ambas sorriram, ambas iam dizer que sim, uma mais nervosa, outra menos feliz.
Bateram-se palmas. 


sábado, 26 de Outubro de 2013

VI

A carrinha era velha. O homem menos, mas o tempo que a tinha era longo. Ia pela estrada de gravilha, no tempo depois do pôr do sol, recolher os fardos de feno colhidos desde que a Estrela Maior se elevara de manhã.
Era o seu trabalho e o campo era grande. A pradaria alentejana, pontuada por árvores solteiras, a companhia na solidão. A viatura não tinha rádio.
Os assentos gastos tinham migalhas de tabaco, pelos cigarros mal enrolados que fumava.
O travo fazia-o querer expulsar a saliva pela janela sem vento, mas jamais contra o seu feno.
O vermelho escurecia com o céu rosado, mas a terra continuava iluminada. Pelos faróis da Ford cor do partido que ia parando. Colina a colina. 

terça-feira, 1 de Outubro de 2013

porto sentido

            ‘Quem vem e atravessa o rio
            Junto à Serra do Pilar
            Vê um velho casario
            Que se estende até ao mar’

            Maria João sentou-se, indagando-se sobre a canção. Em tempos soubera o nome dessas águas que passam junto à colina. Fora até com sua mãe até à dita (cantada) terra, em procura de uma casa de dimensão digna de alcançar o oceano. A mãe partilhava o nome com a serra. Pilar. Lembrava-se também de cantarem o disco todo pelo caminho.
Olhou para o relógio, que lhe dizia que estava atrasada. Saiu do carro e foi rumo à capela onde pousava o corpo da mãe.
Não estava quase ninguém. Ninguém ia querer estar ali, foram chegando, aos poucos e poucos. Só os mortos, os únicos que possuem direito de não lhes apetecer, é que não têm outra hipótese. João interrogou-se se a mãe seria diferente, se não se importava de deixar isto para trás. Afinal, será que a única memória que deixamos na terra é o que se vem despedir de nós? Talvez não se tenha importado de ir. Que houvesse boa música para o caminho, então.
A família, os amigos, os conhecidos, o gato vadio. Umas garrafinhas de água, uns bancos a fazer lembrar a cantina da faculdade e lenços. De tripla folha. A família de se ver no natal, os amigos de não se ver vivo, os desconhecidos e as carpideiras. No Douro escarpado para Gaia há esse mosteiro onde decerto não se chora ninguém falsamente. A morte, essa, sai sempre invicta.
Ainda não caíra lágrima sua. A mãe contara-lhe uma vez que demorara anos a conseguir chorar o pai. Que, até lá, a dor apenas crescia. Um aviso.
Deixou-se estar até ao fim, a ver o caixão aberto contra as suas ordens, as flores que a faziam espirrar e usar lenços para o fim indevido. Até o gato se fora embora. Estava frio sem vento e – no silêncio da solidão – ali sozinha com a mãe, a sua montanha, quase se ouvia os ponteiros do relógio virar. Agora não tinha sítio algum para ir. Estava sozinha.
Trancou sua mãe na caixa pesada, na sala e na capela mortuária. Escurecera e o sol posto já não rosava as nuvens. Regressou ao carro. Ligou o motor e ouviram-se as guitarras de porto sentido.
Pode chorar.


‘Quem te vê ao vir da ponte
És cascata, sã-joanina
Erigida sobre o monte
No meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
Da Ribeira até à Foz
Por pedras sujas e gastas
E lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
Dum rosto e cantaria
Que nos oculta o mistério
Dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonada
Nesse timbre pardacento
Nesse teu jeito fechado
De quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
Em cada regresso a casa
Rever-te nessa altivez
De milhafre ferido na asa’


É quase demasiado bom para não se parar de escrever e só ouvir.